quarta-feira

Pretextos


Não são saudades, são pretextos.
Enquanto fui feliz contigo, pensei mais do que uma vez em deixar-te, em sair do caminho que tínhamos tomado a dois. Pensei inúmeras vezes em esconder o meu coração, para que ele não me pudesse falar sobre ti, em momentos em que eu só queria esquecer(-te). Fiz isto e aquilo para te provar que afinal cada vez que me usavas, eu conseguiria ser melhor do que tu. Ainda hoje estou para descobrir se consegui transmitir-te a mensagem. Penso que nunca te cheguei a perguntar, mas provavelmente se o fizesse a tua resposta iria ser um sim, cheio de ironia e de desprezo. Hoje chego à conclusão que antes de eu pensar em deixar-te já tu me tinhas largado a mão. Mas mantinhas-te por perto, vigiando todos os meus passos, vendo a maneira como agia e sobrevivia. Eu ia sobrevivendo, tu sabes que foram poucas as vezes em que vivia. Cada vez que me desviavas do teu percurso eu acabava sempre por sentir o peito a arder, as minhas mãos ficavam frias e a minha cabeça andava à roda, perdida, sem ti. Como sempre ouvi dizer “só quando perdemos é que damos valor”, e connosco sempre funcionou assim, ou apenas comigo, porque eu já não me sei referir a ti. Todas essas alturas, em que eu sentia a tua ausência, em que eu sentia o teu cheiro a km’s de distância mesmo que fingisse não me incomodar, era mais forte do que a minha própria voz. Dizia-te sempre que um dia era eu quem te virava as costas e partia. Tu sabias como me fazer voltar, eu sei. Talvez fosse “conversa” tudo o que te dizia para te parecer mais forte, mas acredita que eu queria mostrar-te quem sou, queria ter-te feito ver que as pessoas não se usam e se deitam fora. Foi isso que fizeste comigo, não foi? Eu cansei-me tanto desse tempo, cansei-me e tu cansaste-te das minhas palavras. Era cansaço atrás de cansaço, e nenhum dos dois suportou viver nestas condições. Tu porque querias manter a tua postura de rapaz bonito e o homem da relação, e eu porque procurava a minha paz interior. Ambos sabíamos que a decisão mais fácil e ao mesmo tempo dolorosa (para mim) era seguirmos rumos diferentes. Sabendo eu que nem um nem outro iriamos conseguir não quebrar essa promessa. Mais tarde ou mais cedo o meu nome aparecia no teu telemóvel, ou o teu no meu. Sempre foi assim. Até ao dia em que fui eu que me impus, fui eu quem te quis longe, fui eu que me cansei da pessoa rude que eras. Da pessoa trágica, da pessoa despreocupada com tudo que acabaste por desvendar ter dentro de ti. Essa que eu desconhecia, até ao momento. Desfiz-me em lágrimas, arrumei o meu coração, e deixei-te ir. Mas de vez. Mais tarde vi-me sem ti, sem a palavra nós, e quando tu não dizias nada, eu procurava saber de ti, pedia-te ajuda em Inglês, como tu sabes eu sempre fui zero nessa área. E foste tu sempre quem me ajudou. Não eram saudades, jamais terei saudades de tempos que foram mal aproveitados, mas eram sim pretextos para saber se estavas bem, porque tu conheces-me, sabes como preocupava contigo.

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