terça-feira

Não conseguia descançar de noite


Tive medo do escuro todas as noites em que não estavas. Olhava para o céu e parecia-me negro, nem uma estrela encontrara, segundos depois deixava de olhar fixando-me no chão do meu quarto, onde tu já antes pisaste e me fizeste festas sobre a cabeça, eu deitada no teu colo e tu sentado na minha cama. Onde nunca te dei hipóteses de dormires. Embora fosses o meu primeiro amor, aquele que todas as raparigas sonham ter, o primeiro amor, o primeiro conhecido dos pais, e o primeiro a quem entreguei o meu coração… a pessoa que me distribuía beijos todos os dias, mesmo que em 5 minutos. Que muitas das vezes era o tempo que disponibilizavas para mim. Encontrava-me à beira de um ataque de arrepios, de um ataque chocante e deveras assustador, algo que já à algum tempo não me acontecera. Tive medo, mesmo assim levantei a cabeça olhei para o lado e observei os rastos que ainda cá estavam, os mesmos que um dia me fizeram tão feliz quanto o meu sorriso de orelha a orelha. Parei de pensar em mim e centrei-me em ti, centrei-me no tempo que perdi contigo, e nas horas que gastei à tua procura.  Horas essas que deviam ter sido bem aproveitadas, mas fechei os olhos mais uma vez no meio de tantas anteriores e preocupei-me contigo, quis saber se estavas bem. O teu estado físico tal como psicológico sempre me preocupou, sempre foi do meu interesse, sobretudo quando havia uma relação entre nós. Eu sei que para ti isso era mais do que relativo, e que todas as mensagens que recebias minhas, pouco ou nada eram importantes. Eu sei de tudo isso, acredita. Mas acredita também que se no amor eu pudesse mudar as coisas eu mudaria, eu nunca me teria apaixonado por ti, não digo que estou arrependida, apenas me senti um pano velho, senti-me humilhada e sem auto-estima. Tudo causado por ti, pelas tuas palavras ofensivas e pelo rumo que tu próprio querias tomar à minha vida. Se eu pudesse teria aberto os olhos logo no principio, ter-te-ia dado apenas a primeira oportunidade de me fazer feliz, e a segunda nunca teria existido. Mas o amor é assim, nele nós somos apenas alvos, somos estradas feitas por ele, caminhos, uns com outros sem sentido. E parece-me que o nosso fez parte dos sem. Parece-me que em vez de me ouvires a dizer que te amo, manipulavas o meu coração a amar-te para sempre. Desculpa. Desculpa, mas isso não foi possível, felizmente consegui desfazer-me de todos os cheiros, de todas as lutas, de todas as manipulações, de todos os furos, de tudo o que tivesse a ver contigo, e regressei à minha base. Regressei a casa. À casa de onde nunca deveria ter saído. Agora é aqui que me sinto realizada, é aqui onde o meu coração voltou a morar. Sinto-me outra, e com muito amor para dar, aquele que um dia tentaste roubar para ti. Tentaste fingir que o merecias. Agora é o que segura um grande homem. Aquele que merece, aquele que estima, e aquele que aprecia o que eu sou, tanto por dentro como por fora. O medo que eu tinha do escuro terminou, já não preciso de deixar a porta do meu quarto aberta quando estou sozinha para sentir a presença de uma luz por mais pequena que seja, nem preciso de tapar a cabeça para não me deixar apanhar. E o céu, esse brilha, é composto por estrelas, pontos que me ligam a km’s de distância a alguém que me protege e que me conhece de uma maneira saudável.

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